A tal pescadinha dissecada…

Voltando ao assunto muito recentemente comentado da pescadinha de rabo na boca  que por estarem sempre a pegar nela já se encontra em deterioração. Pudera, parece o animalzinho de estimação de muitos governos…

Pelo visto, hoje vem na imprensa uma notícia que complementa o artigo anterior da qual destaco 4 passagens relevantes:

Governo, banca e FMI não se entendem sobre crédito à economiain Jornal i, 18/04/2013.

“O garrote ao crédito imposto desde o início do programa de ajustamento levou o sector privado – famílias e empresasa baixar (…) o nível de endividamento [em] 17,3 mil milhões de euros desde o final de 2010 (…) de 486,6 mil milhões para 469,3 mil milhões de euros até Dezembro último (-3,6%).”

(…)

“O executivo acha que pode impor à banca que aumente o nível de financiamento à economia, mas a banca queixa-se que apesar de todo o alarido a procura por crédito tem sido escassa.”

(…)

“Ontem, o FMI veio explicar o porquê desta baixa procura: em Fevereiro, a banca portuguesa praticava uma taxa de juro média real às empresas superior a 3,5% [e isso é elevado?!] , valor bem mais elevado que as taxas praticadas no grupo de 12 economias analisadas – Portugal, Grécia, Espanha, Itália, Irlanda, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, França, Finlândia, Alemanha e Áustria. Depois de Portugal, a taxa mais elevada é a grega, de 1,8%, segundo salientou o “Dinheiro Vivo”.

(…)

“A razão de juros tão altos em Portugal pode encontrar-se num outro indicador que tem marcado o programa de ajustamento: nos últimos dois anos, com o empobrecimento generalizado da população, o crédito malparado das famílias e das empresas explodiu [!!!]. Os últimos dados do Banco de Portugal, de Fevereiro, mostram que as empresas portuguesas contam com mais de 10,8 mil milhões em crédito malparado – valor que representa um crescimento de 105% [!!!] em relação a Janeiro de 2011.”

(…)

Diga o que se disser o nível de taxas praticadas em Portugal é relativamente elevado quando comparado com outros países: nenhuma objecção. Agora, quer em termos absolutos quer numa lógica intertemporal, uma taxa de juro média real de 3,5% não se pode considerar inacessível. Segundo dados da Pordata nos anos que antecederam o deflagrar da crise financeira (2007 e 2008) a taxa de juro média real implícita* para novas operações de empréstimos a empresas era superior: 3,63% e 4,07% respectivamente (5,63% em 2009). Se juntarmos o facto de 2007 e 2008 terem sido o segundo e o terceiro anos em que mais se concedeu crédito às empresas no período compreendido entre 2003 e 2012, €64.265M e €61.796M respectivamente (só superado em 2004 com €65.758M) contra os €45.613M de 2012, a vontade que dá depois de dissecada a pescadinha é atirá-la ao lixo…

Antes de atirar os seus despojos para o balde convém enaltecer que as razões que estão por detrás deste aparente paradoxo tem apenas que ver com as perspectivas de retorno dos empresários. Se em 2007 e 2008, apesar de mais caro, se recorria mais ao crédito**  é porque os empresários esperavam retornos maiores, ou pelo menos que compensassem esse investimento. Nos dias que correm como as taxas de rentabilidade esperada dos investimentos reais foram substancialmente corrigidas em baixa – puxadas pela conjuntura adversa e instável – pode-se inferir que a redução no montante de crédito concedido pela banca às empresas será motivado pela redução na procura e não tanto por restrições impostas ao balcão. E se as empresas não têm fundos próprios para se expandir – e muito menos para operar normalmente – não fica bem apontar o dedo à banca por na circunstância estar a fazer o trabalho de casa na análise de riscos…

Como tal deixem de pegar no bicho – Passos Coelho e companhia – que ele está desfeito e já cheira mal!

 grosso modo calculada pela subtracção da taxa de inflação às taxas de juro nominais.

** inclusive em 2009: €46.296M. Ano em que as taxas de juro reais estavam mais de 2 pontos percentuais acima das actuais.

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