Paciente: Portugal. Diagnóstico: verminose aguda provocada por lombrigas. Prognóstico: reservado

Em que consiste a patologia

As lombrigas são parasitas que se alojam nos intestinos de um hospedeiro. Assumem a forma de vermes (i.e. lagartas) de cor branca ou amarelada que podem medir de 20 a 40 cm.

Mas como aparecem as lombrigas? A infestação tem origem na ingestão de ovos do parasita que se encontrem em água ou alimentos contaminados. Já os ovos são expelidos de anteriores hospedeiros pelas suas fezes. Os ambientes quentes e húmidos e a falta de condições/cuidados higieno-sanitários propiciam a propagação.

Uma vez no interior do hospedeiro, as larvas percorrem o aparelho digestivo entrando na corrente sanguínea através do intestino delgado. Ao longo do processo de maturação passam pelo coração chegando até aos pulmões, onde invadem os alvéolos. Aí, desenvolvem-se com os nutrientes e oxigénio abundantes nesse órgão bem irrigado. Quando as cavidades alveolares se tornam pequenas demais, as larvas migram através dos brônquios até à faringe, onde normalmente são deglutidas, reentrando no aparelho digestivo.

No regresso ao intestino delgado completam o processo de maturação nutrindo-se pacificamente do bolo alimentar do hospedeiro. Em alguns casos em que existe subnutrição do hospedeiro, os parasitas alimentam-se das próprias paredes intestinais causando hemorragias internas que podem levar à morte. Todavia, em condições normais, e se não forem combatidos, os parasitas subsistem assegurando a continuidade da linhagem por períodos extensos.

A falta de precauções higiénicas faz das crianças e dos indivíduos que vivam em condições de salubridade precárias os mais afectados.

Foco de contaminação: 25 de Abril

Foi no período quente do tumulto que se viveu na mudança de regime que Portugal, sem se aperceber, ingeriu ovos de, vamos chamar-lhes, por simplificação: “partidos.” Estes grupos, aos quais lhe costumam acrescentar “políticos” à designação, mais não são que organizações cuja missão, estatutária pelo menos, seria efectivamente conduzir, discutir, fazer política. No entanto, fazem sobrepor a agenda proprietária e o bem-estar dos seus “profissionais” ao que supostamente seria o seu principal desígnio: servir o país. A bom ver, a razão desta distinção, por defeito, reside no facto da Política ser a ciência que se ocupa do governo das nações. À sua prática subjaz uma ideologia que determina o posicionamento dos partidos perante os assuntos sobre os quais têm que tomar decisões. No entanto, com o passar dos anos sofreu tantas mutações que hoje em dia a ideologia aparece arraçada de “interesse próprio” – em manter o habitat confortável.

No rescaldo da abolição do Estado Novo deu-se a eclosão dos ovos. Foi nesse período que as larvas encontraram as condições ideais para se desenvolverem e se “definirem”. Num país que já não estava educado a viver em liberdade, fechado hermeticamente ao exterior, todo aquele calor e tensão despoletados pela revolução vieram baralhar a definição de cidadania e o enquadramento institucional. Assim, as ditas larvas, aproveitando-se da juventude da democracia, infiltraram-se nos órgãos de soberania.

Propagação

Uns anos mais tarde, depois de emergirem as espécies mais resistentes (dos “partidos” entenda-se), o seu raio de acção tornou-se sistémico. Depois de chegar ao coração, a propagação das lombrigas levou-as até à actividade económica onde também têm consumido e açambarcado recursos ao hospedeiro.

A sua presença na economia, além de manifestamente evidente, tem um impacto muito penalizador: desvirtuando as regras de mercado. São as lombrigas que no seu interesse próprio relevam as oportunidades e fazem a distribuição dos recursos. Em lugar de se perseguir a solução mais próxima do óptimo ficam-se pela do(a) mais “próximo(a)”. Nestas condições é muito difícil uma empresa Portuguesa implementar planos de investimento ambiciosos se estiver condicionada pela acção dos vermes.

Enfermidade mal diagnosticada

Perante o aspecto franzino e vulnerável de Portugal, diagnósticos superficiais e pouco rigorosos apontam para a falta de nutrição como causa. Para tal, FMI e UE estão na disposição de fornecer garrafas de soro para o país se recompor. No entanto tal generosidade ignora que Portugal sofre de parasitismo. Nem mesmo os festins abonados pela UE há 10-15 anos serviram para levantar a suspeita de que o problema possa não residir na falta de nutrição…

Defesas internas letárgicas

A situação é de tal forma grave que a falta de defesas internas coloca o país num estado de debilidade preocupante. A marcha triunfal das lombrigas não tem enfrentado resistência e a julgar pela passividade demonstrada na defesa dos órgãos vitais (entenda-se de soberania) o futuro afigura-se muito delicado. Esse abandono – patente em todos os sufrágios – conduz a uma disrupção crítica e irreversível no funcionamento dos órgãos vitais.

Por tudo o que se disse, desenganem-se aqueles que julgam que as garrafas de soro são a resposta para o problema de crescimento de Portugal. Esta medida apenas servirá para alongar a esperança de vida de Portugal por mais algum tempo.

Na verdade está na natureza das lombrigas alhearem-se da sustentabilidade do seu habitat. Com efeito, é bastante provável que só dêem conta da sua acção nefasta com a morte do hospedeiro e aí será tarde. Falta-lhes visão! Ah-ah! Afinal de contas, são parasitas…

Tratamento a prescrever

Diagnosticar correctamente a verminose que afecta o país e esporear as defesas internas para agir sobre a infecção são passos vitais para a sobrevivência.

Miguel Albuquerque (22/02/2011)

4 thoughts on “Paciente: Portugal. Diagnóstico: verminose aguda provocada por lombrigas. Prognóstico: reservado

  1. Mas alguém ouve estas pessoas?

    Enquanto os Portugueses andarem entorpecidos sem escrutinar o (des)governo da nação continua-se a perder tempo com questões triviais e fúteis.

    O FMI não é nenhuma tábua de salvação e não vai corrigir as nossas defiências estruturais.

    Relace para o último parágrafo. Pegando no adágio:
    Devagar se vai ao longe. Com lombrigas as empresas Portuguesas não vão a lado nenhum.

    Aqui fica a opinião da economista Teodora Cardoso:

    in Diário Económico 31/01/2011

    Teodora Cardoso, administradora do Banco de Portugal, diz que a situação actual não é comparável com a dos anos 80.

    “Portugal não vai resolver a crise recorrendo ao FMI”, afirmou hoje a economista numa conferência em Lisboa.

    Para Teodora Cardoso “não podemos colocar em paralelo a situação actual com os problemas do Fundo Monetário Internacional (FMI) nos anos 80, porque esses programas frisavam resolver o financiamento de curto prazo”. Hoje, continuou a economista, “Portugal precisa de fazer crescer a economia de forma sustentável e reduzir o endividamento”.

    Na análise da economista, “os problemas orçamentais resultaram em boa parte das insuficiências das politicas estruturais” dado que “persistimos por demasiado tempo em ignorar as deficiências estruturais da economia e em não fazer a pedagogia indispensável para as resolver.”

    “Temos que promover a atribuição dos recursos do País a actividades mais competitivas no plano global, atraindo para elas tanto o investimento nacional como estrangeiro”, disse ainda a administradora do Banco de Portugal, notando que “nós precisamos desesperadamente de investimento estrangeiro”.

    http://economico.sapo.pt/noticias/portugal-nao-resolve-a-crise-recorrendo-ao-fmi_110001.html

  2. Olha mais uma bem gorda:

    in Diário Económico 16/02/2011

    “Um único contribuinte beneficiou de metade dos benefícios fiscais”

    Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas, foi hoje ouvido no Parlamento.

    Segundo o parecer do Tribunal de Contas, discutido hoje na Assembleia da República com os deputados, houve apenas um único contribuinte que beneficiou de mais de metade da despesa fiscal efectuada com os benefícios às zonas francas.

    O mesmo se verificou com os benefícios à interioridade e à investigação e desenvolvimento – um facto considerado “negativo para a concorrência” pelo juiz conselheiro do Tribunal de Contas, Raúl Jorge Correia Esteves.

    “A concentração dos benefícios fiscais num número reduzido de beneficiários é apresentada como um factor com aspectos negativos em termos de concorrência”, defendeu Correia Esteves, razão pela qual “há a necessidade de uma avaliação dos benefícios correcta e rigorosa”, frisou.

    http://economico.sapo.pt/noticias/um-unico-contribuinte-beneficiou-de-metade-dos-beneficios-fiscais_111306.html

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