Lost in [the gurus’] translation…

Na abertura do Telejornal de terça-feira, dia 5 de Julho, o pivot anuncia, com um semblante resignado, “Somos lixo”. De reflexos apurados e após esboçar um sorriso jocoso a minha reacção, “Fala por ti!”.

A verdade é que o teor da notícia já era do meu conhecimento: a descida de rating (ou de notação de crédito) da dívida soberana nacional de longo prazo, por parte da agência Moody’s.

A animosidade entretanto manifestada para com a Moody’s  nos discursos demagógicos e mal preparados, de alguns – supostos – entendidos é que foi, e tem sido, despropositada. Isto porque errónea e rapidamente se alastrou à opinião pública.

Avance-se para o esclarecimento cabal da problemática:

Gurus…

Primeiro, as agências de rating exercem uma função de grande utilidade para o funcionamento dos mercados financeiros e dos de obrigações em particular. Ao avaliar a capacidade de pagamento de uma miríade de entidades que recorre ao mercado com o intuito de se financiar contribui para o esbatimento da crónica assimetria de informação que separa emitentes de dívida e investidores. Como resultado da aplicação dos seus modelos de avaliação sistemáticos e rigorosos atribuem uma notação inserida numa escala de fácil interpretação. Basicamente esta traduz a capacidade que as entidades emitentes têm para honrarem os seus compromissos. Da mesma forma se induz a probabilidade de incumprimento.

Segundo, se as agências de rating atingiram um estatuto de gurus na matéria tem sido à custa do mérito de avaliarem correctamente e com uma taxa de sucesso elevada os seus clientes. A credibilidade alcançada não é recente nem foi construída com receita de gelatina.

Terceiro, a excelência que lhes foi (e ainda é) reconhecida causou o efeito pernicioso de endeusamento e infalibilidade amplamente questionado com o deflagrar da crise financeira (o que parece ter sido esquecido). Como se sabe, as agências de rating cometeram erros grosseiros na avaliação do risco de produtos financeiros de natureza complexa e pouco ortodoxa. Produtos esses que estiveram na origem da destruição maciça do património financeiro dos seus titulares e que se propagou de forma epidémica pelo sistema financeiro com os efeitos que ainda hoje se sentem. No entanto, nem a presunção das agências de rating nem a imprudência da leitura “cega” dos seus pareceres por parte dos investidores se sentaram no banco dos réus.

Quarto, como resultado da implicação das agências de rating na eclosão da crise financeira as entidades reguladoras têm insistido na necessidade dos investidores conduzirem a sua própria avaliação recorrendo se necessário a outros pareceres. Esta recomendação visa esvaziar o estatuto de lei dos seus pareceres nos mercados obrigacionistas ao mesmo tempo que reforça a sua independência.

Voltando à escala de notação de qualidade creditícia. Esta subdivide-se em 2 grupos: o grupo dos emitentes de obrigações elegíveis para bancos centrais, fundos de pensões, seguradoras, alguns fundos de investimento, etc. – investment grade – e os de qualidade questionável ou especulativa – speculative grade, high yield ou junk. Ao investir nesta categoria os investidores arriscam mais (especulam) ao comprar obrigações com retorno superiores (high-yield) a troco de uma probabilidade de incumprimento superior.

Ora, na escala de ratings das agências Standard & Poors e Fitch a distinção investment grade vai desde o AAA ao BBB – , sendo que a primeira corresponde à qualidade creditícia máxima de longo prazo. Já a Moody’s, apresenta o mesmo número de degraus mas com notações diferentes – de Aaa a Baa3. A classe especulativa parte do BB+ (Ba1 no caso da Moody’s) e desce até ao C (iminência de incumprimento).

O propósito desta classificação tem como objectivo separar os emitentes que apresentam uma probabilidade de incumprimento muito baixa ou negligenciável e aqueles em que essa possibilidade deve ser considerada no investimento a efectuar. Com efeito, a amplitude da probabilidade de incumprimento a médio/longo prazo (5 anos por exemplo) na categoria elegível é muito curta e fica muito longe dos 5% – dependendo da conjuntura. Já a especulativa cobre o resto do espectro. Estamos portanto na presença duma categoria bastante heterogénea. Além do mais, estes pareceres são sempre passíveis de ser revistos com o passar do tempo e o evoluir da situação do emitente.

…e mais Gurus

No caso da revisão em baixa do rating de longo prazo de Portugal a animosidade está associada a uma interpretação deficiente da expressão junk entretanto cunhada como “lixo”. Isto sem esquecer que há expressões igualmente enquadráveis e sem a conotação negativa (e despropositada) de “lixo”: grau especulativo, qualidade (creditícia) questionável.

Se me é permitida a divagação – junk – para mim, representa “tralha”. E tralha é aquilo que NÃO se considera lixo e se guarda numa arrecadação ou garagem. Lixo deita-se fora, tralha conserva-se porque terá valor – seja ele qual for – e em que numa eventual arrumação se reavalia a sua importância.

É o que se passa com a avaliação da Moody’s a respeito da dívida soberana de Portugal. Na actual conjuntura e tendo em conta os critérios que a agência considera relevantes entendeu descer a nossa notação. Ou seja, perspectivam agora uma maior probabilidade de incumprimento. Convenhamos, nem antes desta mudança de notação a dívida Portuguesa era sacrossanta nem passou a ser “lixo” como se anda a apregoar.

Para terminar deixo aos gurus da nossa praça um conselho: se entendem que a subida das yields (taxa de juro implícita na dívida soberana) é disparatada e que avaliação da Moody’s é censurável então sinalizem-no comprando com todo o capital que tiverem disponível Obrigações do Tesouro. Certamente realizarão mais-valias apreciáveis.

Na gíria do mundo dos mercados financeiros – especialmente para os gurus – recomenda-se à boca cheia: “Put your money where you mouth is!!!”

Depois disto…Sim! Façam a tradução!

Take care…

Miguel Albuquerque (08/07/2011)

3 thoughts on “Lost in [the gurus’] translation…

  1. Admirável reflexão!
    A excelência da prosa verifica-se sempre que a mensagem é clara e inteligível, por muito que, até possa não haver grande domínio do conteúdo e/ou concordância com o mesmo.
    E, realmente, junk, não é literalmente lixo, mas sim algo não desejado, desperdício …
    Os media há muito que entraram no “Admirável Mundo Novo”
    Parabéns!

  2. Diverte-me constatar que mais 8 meses volvidos o “lixo” ainda na boca das pessoas -dos media em particular – para se referir à dívida pública na categoria especulativa – aquela onde Portugal se encontra.
    Entretanto imagino que os franchises de cadeias de restauração internacionais tenham capitalizado com esta situação. Inicialmente até pensei que seriam efeitos da “crise” que levassem as pessoas a ir mais frequentemente a estes restaurantes por venderem comida a preço económico.
    Na verdade foram alvo dum upgrade na comida que vendem. Pois bem, deixaram de vender junk food tendo passado a apresentar nos menus fast food…

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