Entre Hermanos

Tem feito manchete nos últimos dias o “escândalo do envelope” em Espanha. Mais uma história em que pessoas empossadas em cargos públicos, ou pertencentes a organizações que lhes arranjam emprego (entenda-se partidos) usam (e abusam) da sua influência para se enriquecerem – isto sem esquecer os irmãos.

Na verdade não percebi a razão para tanto alarido. Esta é uma faceta incontornável dos regimes democráticos das civilizações ocidentais actuais. O problema é que como as coisas não estão famosas para a maioria da população essa manifestação rasteira que atropela o princípio da igualdade de oportunidades, reduz o conceito de fraternidade aos compadres, nos coloca na dependência económica de terceiros e de um futuro muito sinistro (alienando-nos da liberdade) faz com que os regimes conotados com falta de poder popular se tornem mais apelativos. (Isto daria azo a outro tipo de discussão que será aprazada para outra ocasião).

Esta subversão da democracia incorporada no desenvolvimento de nódulos ilegítimos de poder – como são exemplo os “partidos políticos” e seus militantes empregues em cargos públicos – tornam este tipo de episódios em algo recorrente.

Exemplos?!

Não há muito tempo foi notícia a angariação de negócios do licenciado – doutor a operar nos bastidores – Relvas para as empresas dos irmãos do PSD, nomeadamente o actual primeiro-ministro. E que tal a promiscuidade existente entre quem assume cargos públicos e depois passa para o outro lado da barricada sem antes de sair ter facilitado a vida à que viria a ser – sem surpresa – a sua nova entidade empregadora?! E este caso em que empreiteiros de determinadas construções feitas no concelho da Amadora quiseram partilhar lucros com o autarca?! (gargalhada) E o da “face oculta”?!

Francamente, quando se faz profissão de “lobbyist” – como uma vez me disseram – não se pode ter muitas dúvidas quanto ao que se passa nos bastidores. Em certa ocasião aquando duma viagem com 2 amigos para visitar uma outra que residia em Bruxelas que aí trabalhava para o imenso aparelho democrático da UE entabulei conversa com uma amiga sua. Perguntei-lhe o que fazia. “Trabalho para uma agência que actua junto dos parlamentares no sentido de sensibilizá-los para determinados assuntos.” Pareceu-me interessante mas indaguei quais eram suas fontes de rendimento pensando tratar-se de uma ONG ou algo assim. “Não, somos contratados pelas empresas que querem exercer pressão para que determinada legislação seja aprovada neste ou naquele sentido.” Meio desdenhoso retorqui que isso que me acabara de descrever no meu país (que também é o seu) teria um nome. Sem me deixar acabar atirou “Isto não é corrupção!”. Ri-me explicando que não havia sido eu a pronunciar tal vocábulo! A conversa ficou por ali. *

A sabedoria popular assim nos previne há muito tempo – “a ocasião faz o ladrão!” e “onde há fumo, há fogo“! – para instigarmos a realização de reformas num regime cada vez mais descredibilizado. São exemplos:

 – tornar transparente a situação patrimonial de quem exerce cargos públicos bem como as formas de financiamento dos “partidos políticos”;

– interditar o regresso ao desempenho de cargos no sector privado por prazos longos – superiores a uma legislatura;

– atribuir a responsabilidade de legislar em assuntos relacionados com o estatuto de quem assume cargos públicos – evitando assim conflitos de interesse – a colégios de legisladores sem filiação partidária;

– facilitar o aparecimento de mais partidos políticos alavancando o verdadeiro debate ideológico contrariando a cristalização e tendência recente para a mediocridade;

– entre outras.

Curioso notar que em Portugal, por exemplo, os partidos políticos não se entendem praticamente em nada. Todavia, nestes pontos têm todos interesses alinhados. Porque será?!

Gerir um país não é negócio para ficar entre irmãos! Muito menos de laços partidários…

* Recomendo o filme, baseado em factos verídicos, Casino Jack.

2 thoughts on “Entre Hermanos

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