Sacudir a água do capote

Tardou mas chegou! Mais de 5 anos depois da eclosão da crise financeira foi deduzida, pelo Departamento de Justiça do governo dos Estados Unidos, a acusação contra uma agência de notação financeira pelas perdas causadas pela subavaliação dos riscos inerentes aos produtos financeiros estruturados (e complexos) – CDOs (Collateralized Debt Obligations) – que tinham como subjacente créditos hipotecários de qualidade duvidosa (sub-prime para os que estão na moda). A visada foi a Standard & Poor’s.

Vamos lá ver uma coisa (que é como quem diz muitas) no processo:

1. A concepção dos tais CDOs era tão complexa que a maioria dos profissionais que lidavam com eles não compreendia a sua génese nem tão pouco as suas implicações. Mais, a teia que se construiu à sua volta – com os seguros (os tais Credit Default Swaps) e resseguros que se constituíram – elevaram o grau de complexidade para o nível Rocket Science. Ah! Olha! Pois foi! Na verdade estes produtos foram mesmo concebidos por sujeitos que eram verdadeiros “tratados” em matemática e física aplicadas que provinham de cursos do tipo…Rocket Science! Acabaram na indústria financeira porque…se pagava melhor!

2. O que toda a gente () quis saber foi da remuneração – anormal – que lhe proporcionava investir nestes produtos, supostamente isentos de risco, uma vez que os preços dos subjacentes (casas) dos colaterais (créditos hipotecários) só tinham um sentido: para cima!

3. Como o processo de montagem destes produtos implicava diferentes etapas bem delimitadas e sem interesses colidentes o “egoísmo” (self interest para os bacanos) dos agentes participantes, assente na teoria da eficiência dos mercados, conduziria a um resultado óptimo. A saber:

a) o cidadão comum comprava uma casa;

b) para tal obtinha financiamento junto duma empresa de crédito hipotecário especializada (mortgage originator) – mercado esse que nos EUA se encontra(va) muito fragmentado e que contava com milhares de operadores todos eles independentes dos grandes grupos financeiros de Wall Street (note-se que o financiamento era sempre obtido junto da banca e no caso dos maiores originators directamente de Wall Street);

c) seguidamente essa hipoteca ou, era vendida a uma empresa de maior dimensão que aglutinava uns quantos milhares ou, já sendo esse o caso, vendia-las aos grandes grupos financeiros de Wall Street;

d) depois, os maiorais de Wall Street faziam o slice n’ dice (agora quis fazer vistaço para dizer que pegavam nos milhões de hipotecas que lhes iam parar às mãos fraccionavam-nas, baralhavam, partiam e distribuíam) e depois o bundling (empacotar) off-balance sheet (o mesmo é dizer que “convenientemente fora dos seus balanços”);

e) esses pacotes eram constituídos por camadas dispostas pela qualidade das hipotecas que as compunham. Exemplo: uma percentagem em tiras de hipotecas de muito boa qualidade, outra de boa qualidade mas não tão boa como a primeira, eventualmente algumas mais até chegar à de pior qualidade….sub-prime. Obviamente que à medida que descíamos os patamares da qualidade a remuneração aumentava.

4. Os ganhos eram transversais!

a) O cidadão comum comprava a casa dos seus sonhos (pesadelos se não se livrasse dela antes de 2007) com condições de financiamento estupendas: como o mercado era extremamente competitivo os spreads vinham esmagados, o empréstimo financiava 100% do valor da casa (e às vezes mais), e garantias?! Quais garantias?!?! Até NINJAS (No Income, No Job, [or] Assets) obtiveram crédito…

b) Os originators ganhavam comissões por angariar créditos hipotecários numa função no brainer: quem estava do outro lado da secretária podia ser um idiota sem formação alguma na matéria. Não tinha que se preocupar: o financiamento estava assegurado. Mais, se desse para o torto, não era nas mãos da empresa: a venda das hipotecas estava mais que assegurada também;

c) Os originators (maior dimensão)/aglutinadores de hipotecas vendiam-nas às carradas para os tubarões de Wall Street e com isso…sacavam comissões chorudas;

d) Os maiorais de Wall Street davam-lhe o toque de Midas e tinham o bundle pronto a vender. As suas forças de vendas acostumadas a produtos financeiros mais convencionais conheciam a parte que lhes convinha – as comissões e prémios avultados – e toca a disparar aquilo para todo o lado, incluindo fundos de pensões!

e) Os clientes, encantados pela maravilha da natureza que eram aqueles produtos – que não entendiam muito bem o que eram mas que pagavam taxas de juro fora do normal e tinham risco diminuto –  compravam. Porque era de casas e do fulgor da economia Americana que estávamos a falar e isso dava todas as garantias. Ainda para mais tinham uma notação boa ou muito boa das agências de notação financeira.

f) O governo federal (e os estatais) dos grandes EUA ganhava também. Alavancava: o crescimento económico com as indústrias ligadas ao imobiliário – construção, acabamentos, mobiliário, etc. -, lucros da banca mas principalmente de Wall Street, emprego, consumo privado porque se gerava um círculo virtuoso que punha mais dinheiro nas mãos dos Americanos. Last but no least…mais impostos obviamente. Para financiar o quê? Expedições militares?! Isso agora não interessa…

Posto isto assistimos ao culminar lamentável dum fenómeno de ilusão colectiva alimentada por ganância alucinogénica da qual ainda estamos a sentir os efeitos da ressaca em que:

– se empolou em demasia a aposta num mercado – o imobiliário – com a benção governamental assente em planos de incentivo à compra de habitação própria (algo que nos parece familiar por estes lados);

– não se regulamentou a actividade das empresas especializadas na concessão de crédito hipotecário (mortgage originators) que desenvolviam a sua actividade em roda livre e sem política nenhuma de análise de risco dos clientes;

– se fez vista grossa à forma – pouco sustentável –  de financiamento das originators: amplamente viciadas em linhas de crédito a curto prazo para conceder a longo. Quando as yield curves se inverteram em meados de 2006, calhou mal…

– não se tutelaram as ligações perigosas entre os originators  e a banca (em particular Wall Street) nem a dimensão das transacções efectuadas;

– se desregulamentou o segmento de mercado dos produtos financeiros complexos e seus derivados. Boa Greenspan!;

–  se desregulamentou o controlo da dimensão dos balanços dos grandes grupos financeiros e a forma como eles consolidavam em situações desta natureza;

– se desregulamentou o controlo dos rácios de capital da banca – deixando ao seu livre arbítrio – para absorver eventuais prejuízos;

– se desregulamentou o controlo sobre a dimensão das transacções efectuadas em nome próprio pelas empresas de Wall Street (que diariamente movimentavam biliões de dólares);

– os engenheiros destes produtos complexos apesar de tratados em matemáticas e física aplicada ignoraram que o mercado imobiliário também tem um ponto de saturação que viria a ser atingido!!!!!

…e a culpa é da Standar&Poor’s?! “E o burro sou eu”?! Parece-me evidente que há muitos culpados no meio disto de tudo mas o principal é quem tem que regular, fiscalizar e produzir legislação enquadrável. E de quem é que estamos a falar?! Do mesmo que moveu uma acção contra a agência de notação financeira. As agências de notação financeira só podem responder pela sua incompetência na análise dos riscos intrínsecos dos tais CDOs. Mas afinal quem não os subavaliou?! E os clientes?! Se não entendiam a complexidade dos produtos, muito simples…não compravam!

Finalizo com uma alegoria.

Se estiver num bar muito animado e o empregado perguntar o que quer tomar. “Não sei”. Sugere as mais convencionais. Perante alguma indecisão apresenta uma bebida nova mas potente. “Pode ser!”. Se no dia seguinte à noite de borga em que tomou não uma mas várias vezes a tal bebida a ressaca for incapacitante vai por as culpas no empregado do bar?!

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