Uma mão cheia de…prosperidade!

Uma mão cheia_01

in Repórter Sombra, 2 de Janeiro de 2014 (link aqui)

Nos tempos que correm, uma quantidade significativa de indivíduos acumula, não só, a frustração de se ter visto despojada do padrão de vida relativamente desafogado de que gozava antes da Grande Recessão, como também o ressentimento de se ver excluído do actual processo – tortuoso – de recuperação económica. Como tal, com o propósito de contornar a frieza decepcionante, e míope, dos números do crescimento económico – variação periódica do PIB – algumas correntes de pensamento defendem que se deve dar mais ênfase a critérios de medição da riqueza mais qualitativos, nomeadamente à prosperidade das populações. Entre os defensores desta linha de pensamento está o economista Tim Jackson, que, quando questionado, numa entrevista à Rádio Renascença (clique aqui) se era possível alcançar a prosperidade sem crescimento, respondeu o seguinte:

“Prosperidade é algo mais que crescimento económico ou riqueza material. Liga-se a conceitos como comunidade, saúde, família. É uma noção de prosperidade quase esquecida pelos economistas. É a prosperidade dos poetas, dos profetas ou dos filósofos. Mas também das pessoas comuns.”

Na verdade parece algo, se não muito, difuso. O que é certo que é o autor do livro Prosperidade sem Crescimento não foi muito mais elucidativo.

Para começar, o que é o PIB (Produto Interno Bruto)? “O PIB representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região (quer sejam países, estados ou cidades), durante um período determinado (mês, trimestre, ano, etc)”.* Como também é sabido, a apropriação da riqueza na geração do cômputo destes bens e serviços está longe de ser igualitária. Nunca o foi e nunca o será por muito que se queira impor algum tipo de ideologia que o “defenda”.

O problema é que depois do deflagrar da crise financeira de 2007/08, que se converteu naquela que passou à história (ou ainda não) como a Grande Recessão (A Crise), a desigualdade na distribuição da riqueza, dos rendimentos e até no acesso a oportunidades se acentuou de sobremaneira. E por quê? Por que foram precisamente os menos afortunados** que, além de terem uma base patrimonial mais reduzida, estavam mais alavancados (leia-se relativamente endividados). Não esquecendo que na maioria dos casos tinham como principal fonte de rendimento o salário correspondente pelo seu trabalho, entretanto, eventualmente suprimido. Para cúmulo, os governos dos países pior apetrechados para responder à Grande Recessão, à bolina de teorias económicas de eficácia questionável para expurgar instantaneamente os erros de gestão financeira acumulados em 30 anos, fez repercutir o grosso das medidas correctivas, essencialmente, sobre os menos afortunados.

Por dedução lógica, se foi a desalavancagem financeira que ao induzir a contracção na actividade económica, amplificada pelas medidas de austeridade impostas, deixou amargurados, sobretudo, aqueles que perderam o seu emprego, terá de ser pela via duma variação positiva no crescimento económico que se fará regressar a melhores dias os mais fustigados pela “crise”. A questão fundamental reside no mecanismo disseminador dos efeitos positivos do crescimento económico. A julgar pelas evidências, a eficácia desse mecanismo está seriamente comprometida: nem se assiste a incrementos significativos na actividade económica, nem tão pouco se revela gerador de postos de trabalho. Não surpreende, pois, que apenas uma franja ínfima da população – os mais ricos – continuem a ver o seu património crescer, ao invés da esmagadora maioria.

É aqui que a lógica mais inclusiva do conceito de prosperidade assume particular importância. Ao contrário do que as políticas postas em prática reflectem, o crescimento da economia dum país resulta da soma das suas partes, logo de todos os agentes económicos que dela fazem parte. Por conseguinte, há que procurar soluções que abarquem a sociedade como um todo e deixar de encarar como danos colaterais das medidas correctivas, a perda de qualidade de vida das populações e pior que tudo, a exclusão social.

Se outrora se alcançou um nível médio de conforto e bem estar bastante satisfatório – melhor alimentação, melhores cuidados de saúde, mais e melhor educação, facilidade no acesso ao crédito, acesso a pensões de reforma – a busca disruptiva e sôfrega pelo crescimento económico, veio colocar em causa a sustentabilidade dessa melhoria do padrão de qualidade de vida.

Argumentar pela observância da vertente qualitativa, espiritual e intangível na avaliação da riqueza duma nação parece desajustado na sequência do retrocesso experimentado por uma parte considerável dos cidadãos de alguns países desenvolvidos. Com efeito, a definição de prosperidade será tudo menos consensual no seio, quiçá, duma mesma família, quanto mais duma comunidade, cidade, nação, ou civilização. Se no espaço assume várias formas, texturas ou matizes, que dizer numa lógica intertemporal?!

No presente, entendo que instruir as populações para buscar o seu conceito de prosperidade terá o condão de aliviar a pressão sobre aqueles que mais perderam com “A Crise” e que buscam o regresso ao passado, sobretudo a nível material. Dessa forma, dissipa-se a frustração que se lhes afigura perante a dificuldade de regressar às condições materialistas de bem-estar prevalecentes no passado.

Em jeito de conclusão, defender a primazia da prosperidade sobre o crescimento económico é algo pernicioso. A prosperidade procede do crescimento económico e é defensável neste encadeamento.

Agora, na actual conjuntura, gostava de ver Tim Jackson explicar a quem perdeu a sua fonte de rendimento e a crença num futuro melhor, como é que a prosperidade lhes paga as contas e põe comida na mesa…

* Definição obtida na wikipedia
** Também os menos poderosos, os menos bem relacionados, os menos bem dotados e/ou ágeis para eludir arbitrariedades e desmandos da Administração Pública.

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