Reféns!

Nas minhas cogitações estava escrever algo sobre o estatuto de uma franja da população – que não é a maioria: feliz ou infelizmente deixo essa sentença ao livre arbítrio de cada um – que se encontra entre a espada e a parede na actual conjuntura.

No entanto, deparei-me com uma série de declarações muito válidas – veiculadas nesta notícia sobre o lançamento do livro “Da Corrupção à Crise – Que fazer?” da autoria de Paulo Morais, vice-presidente da Associação Integridade e Transparência” – que concorrem com a linha de raciocínio que iria explanar no eventual texto. Como tal, às declarações originais acrescento o meu comentário pessoal.

Sem mais delongas passo ao essencial:

  • (…) O autor espera que “esta obra seja “um pequeno contributo sobretudo no combate ao medo” que se vive em Portugal, tendo estado presente na sessão o bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto.
  • A corrupção não é um problema da democracia, é um problema que já vinha do tempo da ditadura. Quando se dá o 25 de Abril, no manifesto do programa do Movimento das Forças Armadas, na primeira página, um dos combates que é lá preconizado é o combate à corrupção“, recorda [Paulo Morais].
  • Segundo o ex-vereador da Câmara do Porto, o “regime falhou completamente” neste aspecto e “não só não houve combate eficaz à corrupção, como não houve combate nenhum, como pelo contrário o regime organizou-se para fomentar a corrupção“.

Caso para dizer que com o fim da ditadura se democratizou – também – a corrupção. Em seguida, aquela que creio ser a ideia chave a reter!

  • A política transformou-se numa mega central de negócios, os grupos económicos dominam os partidos e por essa via toda a vida política e a democracia está refém desta situação“, condenou. 

Prosseguindo:

  • Segundo Paulo Morais, “a sociedade portuguesa está hoje contaminada na sua opinião pública por mentiras permanentes”, tentando com “este livro repor alguma verdade” e “explicar que a crise não é culpa de todos“.
  • “Aliás, essa é uma forma de ilibar os principais responsáveis. Naturalmente todos somos responsáveis mas claramente há uns que são mais responsáveis do que outros e eu gostava de repor essa verdade para que não passe para a história que no final do século XX, início do século XXI, havia aqui um povo de gente que andava completamente perdida“, disse.

(…)

  • Já Marinho Pinto defendeu que, “em alguns países, a classe política portuguesa não sobreviveria uma semana” e os políticos “seriam varridos rapidamente para o caixote do lixo da história”.
  • “Eles [políticos] nunca chegaram ao poder por um golpe de Estado. Eles são escolhidos pelo povo português, que sabe do que se passa.” 

Sabe?! Mais ou menos: os eleitores votam, na maioria, na cor que mais lhe “reluz” ou que lhe emprega – e quando não é assim fazem-no em nada mais que “figuras televisionadas“.

  • É também ao povo português que devemos imputar a responsabilidade por esta situação“, defendeu [Marinho Pinto]. 

Aí já estou de acordo: ainda que a taxa de abstenção esteja constantemente a aumentar – desde o primeiro sufrágio, aliás – insiste-se em escolher entre as más alternativas. Se lhe juntarmos os votos em branco e os nulos teríamos inequivocamente mais de dois terços do eleitorado. Será que a democracia pode aspirar a algum tipo de lei que invalide sufrágios estando reunidas estas condições?!

  • Para o bastonário da Ordem dos Advogados existem “evidências, fumos ou indícios de corrupção, porque o povo português não exerce cabalmente a sua acção de vigilância, de crítica cívica”, tendo dado o exemplo de vários casos polémicos, como a compra de dois submarinos por mais de mil milhões de euros. 

E que podemos nós fazer?! Se a Justiça também está manietada pela produção de legislação pobre, equívoca e intencionalmente confusa*!!! Fazer justiça com as próprias mãos?!

  • “O grande mal da sociedade portuguesa está no silêncio imenso que cobre esta sociedade de Norte a Sul do país. Em Portugal o silêncio – por cobardia, por medo, por oportunismo – rende sempre mais, é sempre muito mais vantajoso do que a denúncia, do que a crítica”, lamentou. 

É aí que entra a minha insinuação que o número de gente descontente ou indignada não seja assim tão grande. Este regime não se legitima pela repressão nem pela violência, logo terá de ter uma estrutura de suporte que se mantém fiel porque goza de privilégios por “pertencer ao clube.”**

  • Na opinião de Marinho Pinto, “a corrupção subverte as regras da concorrência num mercado aberto”, sendo as empresas que triunfam neste cenário as piores. 

Aqui está outra ideia chave que pode ajudar a explicar a razão pela qual o tecido empresarial Português assenta em micro-empresas. É fazer uma retrospectiva à essência da “Lei do Condicionamento Industrial” vigente durante grande parte do Estado Novo: a lógica actual é a mesma, simplesmente não está suportada por acto legislativo formal…Exemplo?! Caso “face oculta”. Mas deve haver muitos mais…ocultados!

Enquanto não se interromper a concentração de poder nas falanges partidárias jamais haverá uma distribuição (mais) justa das oportunidades. Tal como as coisas estão estas terão sempre uma “ordem de distribuição” (pecking order)  que favorece o núcleo e os que à volta dele gravitam. Tal como as coisas estão no topo da agenda estará, não o bem comum ou o progresso da nação, mas sim o da cúpula da falange.

Na falta de outros mecanismos de defesa dos nossos interesses estamos reféns!Reféns na nossa própria casa!***

*Como acredito que os árbitros de futebol quando erram não o fazem intencionalmente os juízes também não.

**Para os que se interrogaram quem poderá ser a legião que os suporta: pensem nos bastiões redundantes e caros como os orgãos do poder local e demais repartições afiliadas e sob alçada do governo central e por conseguinte das…das…falanges partidárias! Já nem falo da imensa Famiglia burocrática sediada em Lisboa, porque essa é evidente!!! Acrescentem-se políticas sociais “desnecessariamente” generosas que mantêm uns quantos milhares sossegados e temos a explicação para a acalmia que inquieta Marinho Pinto.

***Os que não se querem sujeitar ao abuso permanente e à oferta de um futuro cheio de nada…emigram! Essa até foi a mensagem…

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