Está de ressaca?! Embebede-se mais um pouco… (II)

Parte II

O que é que está a correr mal?

Presentemente, a persistência de taxas de juro reais de curto prazo negativas – e não muito longe disso a médio e longo prazo – e os elevados níveis de liquidez têm-se revelado ineficazes para ressuscitar a actividade económica. Senão vejamos:

  • a diminuição drástica do preço relativo do dinheiro deveria ter levado à substituição de poupança por consumo/investimento – nem por isso;
  • com o embaratecimento do preço do dinheiro seria expectável que a percepção do poder de compra dos agentes económicos viesse ampliada. Isso reforçaria a opção pelo consumo/investimento – não foi o caso;
  • a prazo, uma vez que estas medidas se alongariam no tempo era suposto os agentes económicos sentirem-se encorajados a fazer mais uso do seu rendimento perante um cenário com menos constrangimentos. Ainda assim este efeito riqueza favorável não surtiu o efeito desejável mesmo depois da escalada que “parecia imparável” nos activos de risco já mencionados.

O que é que está a correr mal?! Para começar, é um dado adquirido que as autoridades monetárias – bancos centrais – definem e induzem a política monetária. Todavia dependem largamente de outro elo as outras instituições criadoras de moeda – bancos. Pois são estes últimos que depois das perdas registadas com o crédito concedido com pouco critério, num primeiro momento, e mais recentemente com a incerteza relacionada com o enquadramento regulamentar do sector que têm condicionado o objectivo governamental de alimentar a economia com crédito barato. Alguns dedos acusadores que pregam retórica insidiosa responsabilizam as instituições financeiras de não cumprirem o seu “papel social”. Na verdade apenas aplicam a disciplina e o rigor que lhes são exigidos na concessão de crédito. Ainda assim, o problema maior é uma notória redução da procura agregada que por sua vez se reflecte numa contracção nos créditos contratados.

Foi a degeneração do sector financeiro “sombra” que aniquilou a procura agregada marginal forçando as empresas mais alavancadas ou com margens de exploração mais magras a fechar. As políticas de sustentação da procura conjunturais implementadas pelos governos e as redes de protecção social evitaram que a sangria de postos de trabalho fosse maior.

A necessidade de corrigir os défices orçamentais dos Estados, de dar continuidade ao processo de desalavancagem quer das famílias quer das empresas e as fracas perspectivas de crescimento económico conduzem todos à mesma tomada de posição: aumento da poupança. Se nesta conjuntura o aumento de receitas se adivinha bastante complicado então terá de ser maioritária e forçosamente do lado da despesa que o ajustamento se fará. Seja nas decisões de consumo, que combinadas deprimem ainda mais a procura agregada, seja nas decisões de investimento por parte das empresas ambas dão corpo a uma redução da escala da despesa e concorrem ambas para o aumento do desemprego e consequentemente para novo golpe na procura. De referir que a volatilidade na amplitude e duração das políticas de austeridade agudiza a necessidade de realização de poupança e de contenção dos gastos o que por conseguinte reforça o impacto negativo na procura agregada.

E agora?! O que fazer?!

Nesta encruzilhada de: revisão em baixa do produto potencial; luta contra a ameaça da deflação, correcção de défices orçamentais; grande incerteza legislativa ao nível fiscal e de enquadramento regulamentar da banca; subida da fasquia do desemprego estrutural, a cartilha que serve de guião para os políticos actuais parece obsoleta.

Quanto à riqueza gerada a nível global – exceptuando os focos de crescimento centrados nos países emergentes – teremos de nos contentar com um ritmo mais lento. Ressalva-se a descoberta de algum mecanismo, uma mudança de paradigma, que potencie a produtividade dos factores e que permita uma acumulação de riqueza mais sustentável do que aquela proporcionada pelo sistema financeiro “sombra”.

A deflação continua a pairar sobre a actuação dos Bancos Centrais que têm recorrido a políticas não ortodoxas de monetização de dívida pública avolumando os seus balanços para aumentar a base monetária. Com isso procura-se aliviar os constrangimentos no financiamento a curto prazo da banca colocando à sua disposição liquidez com custo negligenciável ou mesmo abaixo das taxas directoras (como acontece com o BCE). O que se tem observado na prática tem sido uma progressão lenta dos agregados monetários e uma diminuição da velocidade de circulação da moeda, reflexo duma menor procura por moeda, logo por empréstimos. Todavia, a única inflação que as medidas de fomento de liquidez induziram foi a que proveio dos mercados financeiros:

  • o único efeito detectável na taxa de inflação da economia real foi alimentado pela subida dos preços das commodities. A reciclagem de dólares americanos levada a cabo pelos países emergentes nos mercados de commodities e o interesse despertado nos investidores especulativos complicaram ainda mais a conjuntura ao aumentar, num primeiro momento, os custos de produção canalizados posteriormente, nalguns casos, para os consumidores;
  • fora da compilação de dados estatísticos para o apuramento da taxa de inflação, a enxurrada de meios líquidos canalizados para o sistema financeiro, a redução dos prémios de risco bem como o custo de oportunidade da liquidez negativo (leia-se taxas de juro reais de curto prazo negativas) reflectiu-se na escalada dos preços dos activos financeiros de risco já anteriormente mencionados. Aliás perante a abundância de dólares americanos – um dos bancos centrais mais generosos – assistimos a uma tendencial depreciação desta divisa e à valorização dos activos de risco denominados , maioritariamente, nesta moeda.

Os países em ciclos de austeridade fiscal além de estarem, como já foi referido, a acentuar a contracção na actividade económica estão também a contribuir para a paradoxal sustentação da inflação com a oneração dos bens e serviços. Quanto ao processo em si a necessidade de reequilibrar os orçamentos fiscais proporciona uma oportunidade única para os governos corrigirem a trajectória insustentável das finanças públicas bem como para redefinirem o papel do Estado na sociedade.

As incertezas, legislativa ao nível fiscal e, de enquadramento regulamentar da banca assumem-se como nuvens cerradíssimas a ensombrar a actividade económica. São estas que impedem as famílias e as empresas – agentes económicos mais numerosos e relevantes da economia – de tomar decisões firmes de consumo e investimento a médio/longo prazo. A confluência destes dois vectores contribui, como já foi aqui apresentado, para uma retracção maior de ambos e consequentemente da actividade económica.

Esta questão leva-nos ao problema maior: o aumento do desemprego estrutural (com tendência a agravar-se pela crescente mecanização da actividade económica). Isto explica-se pela retracção do produto potencial e pelo actual excesso de capacidade instalada na economia global. O mesmo é dizer que esta se encontra sobredimensionada para aquilo que é considerado o “novo padrão normal” de consumo. Isto explica também em parte as reservas que as empresas colocam em pôr em prática planos de investimento: não há procura para a escala em que se encontram. Ou se dá continuidade aos movimentos de fusão e aquisição que tiveram início logo após a normalização do primeiro impacto da crise financeira ou então continuaremos a assistir ao emagrecimento dos balanços das empresas. As consequências estão à vista sendo que banca é claramente o candidato mais forte a esse movimento de consolidação. Já se sabe que estas operações não são propriamente criadoras de postos de trabalho. O que acaba por ser mais preocupante é essa capacidade excedentária de mão-de-obra, principalmente nos países desenvolvidos, que só a demografia pode pôr cobro. Explorar o melhor momento dos países emergentes pode ser uma saída mas não se afigurará duradoura. Enquanto não encontramos antídoto para esta doença “Deus nos livre” duma pandemia – a sério – ou pior, duma guerra. O desemprego estrutural acima da média tem sido um denominador comum destes fenómenos…

Fica patente, pelo que se disse, que é manifestamente impossível retomar a “festa” de outrora. Dar mais álcool para evitar a ressaca é contraproducente. O mesmo é dizer que as políticas económicas implementadas até aqui têm-se revelado ineficazes porque procuram o regresso à tendência anterior pouco saudável. É tempo de ressacar, expurgar os excessos, dar as mãos e enfrentar os desafios enunciados, unidos. Para tal é fundamental que os governos do grupo de países mais afectados cheguem a um consenso abrangente. Meias medidas e unilateralismo não chegam. Para o futuro convém repensar os mecanismos que previnam a ocorrência de bebedeiras desta magnitude.

Em nota final refira-se que nunca se viu um governo não ser reeleito com uma economia fulgurante. O mesmo é dizer que é raro ver o dono do bar que não continue a fazer chegar bebidas alcoólicas a quem já esteja visivelmente embriagado. Quando é que deixa de o fazer?! Ou quando o cliente cai para o lado ou quando deixa de ter dinheiro para lhe pagar…

Miguel Albuquerque

(26/10/2011)

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