De Suster a Respiração…

Ontem quando o ministro das finanças anunciou, de manhã, em directo, que não seriam necessárias mais medidas de austeridade soltei uma gargalhada. Não pelo que acabara de dizer mas pela forma convicta como o afirmou. O senhor que tanto jeito tem para discursos em público. Que personagem…Ainda assim aludiu, balbuciando, para a tomada de medidas adicionais que podem passar pela atribuição de concessões e pela venda de mais património para compensar os desvios verificados na execução do orçamento no ano anterior.

À tarde, uma leitura mais tecnicista do Banco de Portugal – pelo menos este Governador já não é comensal cativo nas jantaradas com os membros do governo – advertiu para a necessidade de apertar o cinto mais um bocado. Não é que não estejamos à vontade nem elegantes. Como ainda não temos aquela cinta de vespa estas mentes iluminadas ao serviço do estado só pararão para repensar a sua estratégia quando usarmos os relógios de pulso…no lugar do cinto.

Sim, por que tendo em conta que estão a ignorar todas as revisões em baixa dos macro indicadores económicos – PIB, consumo, concessão de crédito, desemprego (este sempre em alta), investimento, défice orçamental, etc. – das duas, uma: ou despedem a equipa que faz os estudos econométricos para estes parâmetros ou então começam a ponderar em alterar o rumo da política que têm vindo a implementar. Sim, esse do apertar do cinto.

OK! Vou dar uma ajuda. Duas Dicas. Quanto à projecção dos parâmetros acima referidos é preciso dizer-se que não se trata duma ciência exacta e que no contexto actual a proporção de erro aleatório assume maior preponderância contribuindo para um enviesamento maior das estimativas. Ora, se se levar isso em linha de conta convém fazer uma utilização mais prudente dessas mesmas estimativas. Por isso, na computação desse modelo convém ao governo considerar que aqueles parâmetros designados por “constantes” terão de ser revistos com maior frequência porque podem não estar a evidenciar esse comportamento “estável” ou “previsível”. Refiro-me à propensão ao consumo, à poupança, à procura de emprego e porque não à arrecadação de receitas fiscais. É sabido que a política fiscal é a única faceta da política económica sobre a qual – ainda – mantemos soberania: a tutela da política cambial e monetária recai sobre o Banco Central Europeu.

O que me leva à segunda dica. Tem sido inequívoco que o que mais tem contribuído para o ajustamento do défice orçamental do Estado têm sido as receitas fiscais. Por muito que venham com a conversa fiada este se fará em um terço pelo lado da receita e dois terços pela despesa. Até o pode ser na prática mas regra geral estaremos perante um agravamento de impostos e uma redução dos benefícios sociais (leia-se a despesa que eles apregoam). Com efeito, esse registo há-de resultar até um dia. Pois, é que para continuarem a sobrecarregar os contribuintes – individuais ou colectivos – é preciso que eles tenham rendimento. Repito, é condição sine qua non. Com o encerramento epidémico de empresas e com o consequente aumento do desemprego onde é que suas excelências, homens e mulheres, sábios vão buscar o dinheiro?! A Jerónimo Martins já deu o mote assim como as dezenas de milhar de Portugueses que preferem não ter que se digladiar por um salva-vidas perante o eventual naufrágio do país cujo comandante e respectivo imediato insistem em conduzi-lo até ao rochedo mais próximo.

Mais, no actual estado da nação já não é o apertar do cinto que não tem mais furos que nos pedem: é o suster da respiração!!! E toda a gente sabe o que acontece se não nos deixarem respirar…

Miguel Albuquerque (11-01-2012)

4 thoughts on “De Suster a Respiração…

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