Fábula Portuguesa, com certeza!

Não há muito tempo estava o Zé Povinho a contemplar a sua pequena horta – pequena mas que sempre o abastecera satisfatoriamente – quando reparou que estava um pouco desguarnecida. Em anos anteriores já havia notado, pontualmente, que lhe faltavam alguns frutos e hortaliças mas como se tinham tratado de anos proveitosos, e alguma da sua colheita acabava por se estragar, não fez caso.

No entanto, à medida que as colheitas foram piorando começou a tornar-se mais observador. Mais desconfiado ficou quando se apercebeu que uma parte dos seus rebentos desaparecia quando recebia a visita do seu Amigo da Onça.

Num belo dia – força de expressão – o Zé Povinho confrontou o Amigo da Onça. Atarantado e com notórias culpas no cartório, o Amigo da Onça, empurra o Zé Povinho para a boca dum poço bem fundo que “por azar apareceu ali”.

“E agora?!  Que faço?!”, afligiu-se o Amigo da Onça. O incidente não passou despercebido e rapidamente se pensou em chamar ajuda. O pobre do bombeiro Ferreira foi o primeiro a chegar ao local mas não pode acudir porque não tinha meios. De qualquer das formas como o Amigo da Onça não queria que se descobrisse o que se passou prontamente assegurou que se tratara dum acidente e sugeriu que se chamasse o bombeiro Hans. Certamente o profissional oriundo da Alemanha estaria apetrechado para o resgate.

Assim aconteceu. Todavia quando aceitou fazer o salvamento, Hans, até porque envolvia meios dispendiosos, fez menção que esse resgate teria de ser pago. Pois, como o Amigo da Onça estava aflito pelo que havia feito – e convenhamos nunca primou pela inteligência –  aceitou as condições sem pestanejar nem tão pouco negociar.

Chegado ao local o bombeiro Hans informa o Amigo da Onça que vai precisar da sua ajuda enquanto opera os meios técnicos para resgatar o Zé Povinho. “Zé vais ser salvo! Chamei o bombeiro Hans que te vai tirar daqui. Não há problema, só tens de pagar o serviço dele mas não te preocupes eu negociei um bom preço!” afiançou o Amigo da Onça.

Entretanto o eficiente bombeiro Hans põe em curso a operação de salvamento. Como nunca foi de muitas palavras limitou-se a fazer o seu trabalho sem questionar como é que o Zé Povinho foi parar ali e muito menos o envolvimento do Amigo da Onça na questão. “Eles são amigos”, balbuciou Hans para se convencer do carácter acidental da coisa.

Incapaz de fugir à sua natureza o Amigo da Onça viu no “infortúnio” do Zé Povinho e na neutralidade – esperada – do bombeiro Hans uma oportunidade para continuar a pilhar a sua horta. Para ter sucesso bastava ir distraindo o bombeiro com insignificâncias.

A determinada altura, já inquieto com a demora em sair do poço, Zé Povinho irrita-se e começa a reclamar da falta de seriedade do usurpador do bombeiro Hans que lhe faz pagar um serviço para o qual o considera incompetente. “O que será da minha horta”, grita desesperado o “acidentado”.

Neste momento, enquanto lê esta fábula o Amigo da Onça continua a depauperar a horta do Zé Povinho enquanto vai fazendo manobras de diversão para alongar o resgate e evitar que se descubra a sua responsabilidade no “acidente”. O bombeiro Hans alheio às intenções do Amigo da Onça prossegue o resgate com maior ou menor dificuldade mas espera ser ressarcido pelo serviço. Já o desgraçado do Zé Povinho continua a desesperar por não poder cuidar da sua horta temendo vir a realizar ainda menores colheitas.

E você?! Que capítulo prevê que seja escrito em seguida?! Tardará muito o Zé Povinho a sair do “buraco”? Virá a tempo de impedir que o Amigo da Onça o deixe na penúria?! Quando regressar tirará satisfaçoes do seu Amigo da Onça ou assacará responsabilidades ao bombeiro Hans pela demora em surtir efeito o resgate? E este, alguma vez abandonará a sua “neutralidade” na questão? Perante a demora no resgate será sensível a uma redução nos honorários que irá cobrar ao Zé Povinho depois de avaliar a incompetência e má-fé do Amigo da Onça?!

Haverá alguma moral nesta fábula?

Nota do autor: Uma obra acabada é um produto final e é assim que é apreendida. Seja ela magnífica ou uma bela porcaria é passível de ser criticada pelo maior dos energúmenos. Porquê?! Porque não há mais nada a acrescentar. No entanto a todos lhe ocorre uma maneira distinta de a realizar ou concluir. Já as obras inacabadas sempre suscitaram maior fascínio no público. Porquê? Talvez seja pelo misticismo que encerra o exercício de interpretar o que ia na cabeça do autor ou sobretudo pela margem que se permite ao público de imaginar a sua própria conclusão. Talvez não seja nada disto e apenas lhes inspire medo ter de arriscar um desenlace…

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