É um ataque especulativo, estúpido!

Nas últimas semanas vários temas preencheram em larga medida os temas de conversa dos Portugueses (e Europeus genericamente). Depois da nuvem de cinza expelida pelo vulcão Islandês passámos a trocar no elevador, um “dizem que é um ataque especulativo”…; em lugar do até então mais corrente: “esta nuvem de cinza…”

 Um ataque…

 “Um ataque especulativo!” tem-se ouvido repetidamente da boca de muitos dignitários Portugueses para caracterizar a desvolarização verificada nos activos financeiros de base nacional. Honestamente, esta expressão – que não é inédita e à qual os presidentes dos bancos, em 2008, deram bastante uso – suscita-me uma acção, do estilo militar, desencadeada por verdadeiros terroristas. Sempre que a ouço começo a visualizar os activos financeiros Portugueses a serem completamente “especulados” por “especuladores” intrépidos munidos dos instrumentos de “especulação” mais sofisticados.

 …especulativo!

 Mas afinal o que é especular? Uma possível definição aplicável a este universo seria: quaisquer operações (compra e venda) realizadas com o intuito de obter mais-valias financeiras (ou patrimoniais) apostando na manutenção duma tendência. Bom, isso faz de qualquer cidadão comum um “especulador”. Também é verdade que, assumindo a racionalidade dos intervenientes, ninguém o faz indiscriminadamente. Não se compra ou vende algo com a intenção de prejudicar algo ou alguém mas sim em proveito próprio. E tem sido esta postura “egoísta” que sempre fez funcionar os mercados (sejam eles quais forem). Quando a procura e oferta se confrontam o negócio realiza-se ao preço a que o comprador, no seu interesse, está disposto a adquirir algo e o vendedor, fazendo as suas contas, a alienar o seu pertence (ou esforço). De facto é preciso ter cuidado porque há muita gente perigosa a “especular”!

 Mercados de dívida pública

 Para quem não sabe, estes instrumentos financeiros não são transaccionados num “local” onde as ordens de compra e venda sejam centralizadas, isto é, as transacções não se processam num mercado à vista. Antes funcionam over-the-counter, o que significa que em lugar de haver um mercado, existem vários operadores, regra geral bancos de investimento, que compram e/ou vendem ao “balcão”. Decorrente de não haver um mercado à vista também não há um preço único que satisfaça todas as transacções num determinado instante. No entanto, e apesar de tudo, o montante emitido de dívida pública, principalmente dos países desenvolvidos, é bem comprido. Tomemos Portugal como exemplo: a capitalização bolsista de todas as empresas cotadas em bolsa é de cerca de €65.000 milhões – a dívida soberana, para as diferentes maturidadades, é de mais do triplo. Sem embargo, esta classe de activos (emitida por países desenvolvidos e com notação de qualidade de crédito, elevada) é bem mais líquida que (quase) todas as acções do índice principal. Além do mais, são títulos detidos em larga escala, por investidores institucionais (e logo profissionais) abarcando os próprios operadores de mercado. A razão prende-se com o facto de serem títulos que os bancos e as seguradoras utilizam  quer para balancear o risco das suas carteiras de investimento – face a outras classes mais voláteis – quer para utilizar em operações de refinanciamento junto do banco central (a banca comercial, nomeadamente). Corolário: face ao exposto é pouco plausível um enredo em que um ataque especulativo (leia-se também, manipulador) tenha aderência à realidade contemporânea. Quanto muito terá havido alguma histeria que terá amplificado o movimento de venda. A reacção dos investidores perante um mercado em queda sempre foi mais emocional que na subida. Algo que a psicologia consegue explicar…

 Nem tudo é mau…

 O mercado “assustou-se” mas não foi com uma partida que lhe pregaram. O problema subjacente, posto a nu pela crise financeira de 2008, não é recente! Resumidamente, Portugal é uma economia de crescimento anémico, com uma demografia em fase de atrofiamento, com mais debilidades estruturais que Governos competentes. Mais concretamente, e no longo prazo, tente-se imaginar a sustentabilidade da economia de um país que se endivida a um ritmo superior do que aquele a que consegue gerar riqueza. “Se já usou a solução vender património e se aumentar os impostos é a sua melhor opção sugiro uma reflexão mais profunda.” É precisamente esta a leitura pouco optimista das “malditas” agências de rating

 Obrigado “especuladores”!

 Em lugar de atirar pedras e de responsabilizar os “especuladores” devíamos agradecer-lhes! A história recente atesta o seu contributo positivo. Há 2 anos alertaram para o estado catastrófico – do qual ainda recuperamos – em que se encontrava o sistema financeiro. Não fosse a sua acção incisiva e demoníaca teríamos sabido o que tinha sido “O dia seguinte ao colapso do sistema financeiro”. Desta feita teríamos assistido ao prolongamento da decadência da economia Portuguesa. Doutro ângulo, não fossem estes mal intencionados “especuladores” não teríamos tido reacções tão prontas e enérgicas, numa primeira instância, da Admnistração Norte-Americana e noutra, do Estado-Maior da União Europeia, no sentido de se procurar a resolução para problemas profundos.

 Pois bem, antigamente, atribuía-se a autoria de fenómenos que o conhecimento não decifrava ao sobrenatural ou a entidades supremas. Com o passar do tempo e com a evolução do conhecimento a ignorância foi perdendo terreno. Actualmente, essa tendência mantém-se mas os “outros” passaram a ter as costas muito largas tal tem sido o peso exercido sobre os seus ombros…

Miguel Albuquerque

(12/05/2010)

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