Foi na réstia…

Há um livro que retrata bem a necessidade de adaptabilidade à mudança (de circunstâncias, pressupostos, contexto, etc.): “Quem mexeu no meu queijo“. Esta obra – de leitura obrigatória – apela à proactividade para evitar ficar à mercê das correntes e/ou marés e assim contribuir decisivamente para o seu destino.

Pois bem, no passado fim de semana o actual primeiro-ministro (PM) deslocou-se a Santiago do Chile para participar na IV Cimeira de chefes de Estado e de Governo da União Europeia/Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (UE/CELAC). E foi aí que sacou da cartola…(seria um trocadilho muito básico jogar com o nome do senhor) uma ideia peregrina: “Portugal representa uma mar de oportunidades para a América Latina [e Caraíbas]“! E porquê?! “Porque “Portugal é um dos poucos países que mantêm simultaneamente ligações políticas, comerciais, económicas, culturais e linguísticas com todas as regiões e economias emergentes do globo”. Mais, está “integrado em diversas redes institucionais” que o tornam “numa ponte de ligação entre a Europa e a América Latina e Caraíbas, por um lado, e, simultaneamente, entre essas duas regiões e os continentes africano e asiático“, tendo destacado a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Hmmmm…Pois! Mas ao que parece os destinatários de tão rico discurso já poderiam ter beneficiado das benesses que Passos Coelho enunciou há muito tempo! Que se saiba não houve nenhuma revisão na cartografia geográfica nem os movimentos tectónicos da crosta terrestre alteraram as coordenadas de Portugal, a partilha de laços linguísticos e culturais – com alguns desses países – já tem séculos, a inserção em organizações internacionais sejam elas de integração/cooperação económica e/ou política já tens algumas dezenas de anos, por isso…não se vislumbra nada de novo que tenha levado o PM Português a apelar para as oportunidades que tanto propalou! E se houvesse uma conjuntura favorável para desenvolver negócios com Portugal ou a partir daí esta não seria a melhor. Estarei eu a ver a coisa pelo prisma errado?!

Não creio, só me interrogo para que serviam as sumptuosas missões diplomáticas em países estrangeiros a acompanhar presidentes da república, primeiros-ministros ou ministros dos negócios estrangeiros, noutros tempos. Sim, para quê? Recordo-me de os ver documentados por reportagens televisivas com muitos sorrisos, boa disposição, comitivas bem extensas, discursos muito cerimoniosos… E resultados?! Negócios que se notassem na balança comercial sem ser do lado das importações?! Se calhar levaram de “férias” os empresários errados…

Não muito depois do PM ter regressado da viagem ao Chile um estudo revelado pela consultora Ernst&Young veio confirmar a atractividade de Portugal como plataforma para encetar e desenvolver relações comerciais ou de investimento em países como Angola e/ou Brasil. Cortando nos floreados a razão é muito simples: a língua em comum. Note-se: o objectivo não é investir em Portugal é aceder e investir nesses mercados via Portugal. Lamentavelmente (ou não!), esse fim pode ser atingido recrutando a nossa mão-de-obra qualificada – quiçá a nossa maior e mais barata exportação – para os quadros das empresas que tenham interesses ou agenda quer no Brasil ou em Angola.

É triste constatar-se que em países como o Brasil a nossa vizinha Espanha tenha um envolvimento muito maior e mais profundo – logo mais proveitoso – que Portugal. Veja-se a presença em sectores como a banca (Santander, BBVA), telecomunicações (Telefónica), energia (Repsol), serviços públicos de fornecimento de energia (Iberdrola, Endesa) e engenharia e construção (Abengoa). E nem vamos pela presença das empresas Espanholas no resto da América Latina para não piorar os termos de comparação.

Para atalhar a minha perspectiva sobre este assunto regresso ao livro que recomendei acima para explicar o comportamento frenético dos “nossos” representantes: foi preciso ter-se mudado a maré e o mar ficar picado, não ter mais onde se agarrar e ser acossado por terceiros como contrapartida da tábua de salvação que nos “emprestaram” para se “esforçarem” para trazer mais queijo (leia-se negócios) para Portugal. Até aqui viveram do status de pertencer ao “clube dos ricos”, do crédito barato para financiar o desperdício e a ineficiência (eu acrescentaria os crimes económicos perpetrados pelos “amigos”) do estado e o buraco imenso da balança de transacções correntes, entre outros desmandos.

Foi só na réstia…que se dignaram a fazer alguma coisa! E ainda há tanto por fazer!!!

2 thoughts on “Foi na réstia…

  1. Pingback: Na sombra a oferecer lugares ao sol | acorda es(torpor)ado!

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