E tudo o vento (ainda não) levou…

Recentemente chamou-me à atenção uma interpelação feita por um comediante do canal Q ao ministro das finanças, Vítor Gaspar, por altura de uma série de conferências organizadas pelo PSD, partido maioritário da coligação que governa Portugal. Na circunstância, o “pretenso” jornalista do canal Q perguntou ao ministro se alguma vez ponderara seguir carreira na astrologia ou na meteorologia em face dos sucessivos erros de previsão na evolução dos principais agregados/indicadores macroeconómicos.

Fiquei sem perceber e creio até que Gaspar se safou bem da pergunta jocosa. Efectivamente, a astrologia carece de método e validação empírica comprovada –  e daí o ministro dizer que pouco entende na matéria – e tanto quanto se saiba a meteorologia tem cada vez mais provado a sua eficácia na previsão do estado do tempo – facto enaltecido por Gaspar. Pela minha leitura a pergunta envenenada até poderia ser encarada como elogiosa…

Hoje, após leitura atenta de uns quantos artigos de opinião que tinha gravado nos favoritos do meu computador pessoal vislumbrei um ponto de vista mais adequado para a analogia chistosa: previsão meteorológica da direcção e força dos ventos. Que ventos?! Os da mudança…*

Para os mais distraídos, para aqueles que têm metida a cabeça na areia, para os autistas convictos a manifestação do passado 2 de Março e os resultados eleitorais na Grécia e em Itália não tiveram qualquer impacto. Tudo rola…

O professor universitário João Cardoso Rosas (JCR) inicia o seu artigo de 6 de Março no Diário Económico (DE) com esta problemática:

“Temos assistido em Portugal a inusitadas formas de participação política mais ou menos informal: é o caso de manifestações como a do 2M, não enquadradas em termos partidários; das “grandoladas”; dos pedidos de facturas em nome do primeiro-ministro, etc.

Estes fenómenos reflectem um mal-estar democrático que muito do comentário político insiste em não compreender. Vários comentadores verberam estes protestos, enfatizando os perigos de populismo, ou chamando aos seus intervenientes “fascistas” e outras coisas do género.””

Intervalando com as indagações colocadas por Pedro Tadeu (PT) na sua crónica de 5 de Março no Diário de Notícias:

Limitou-se aquela participação cívica, notavelmente pacífica, a ser uma mera libertação colectiva de bílis? Foi apenas uma catarse inconsequente? Se houvesse amanhã eleições, em que votaria a maioria dos manifestantes? Será que iria, sequer, votar ? (…) quantos (…) estão dispostos a alinhar, de novo, no jogo da alternância, da roleta “mais do mesmo”, onde perdemos, suavemente, as fichas de democracia?

Não se trata dum frente-a-frente mas JCR concretiza:

A grande maioria deles protesta não contra a democracia representativa, mas porque esta não está a funcionar. A disfunção específica da democracia portuguesa (…) é uma consequência directa do processo de europeização. (…) Ou seja, a Europa foi uma forma de criar bem-estar e, assim também, legitimar o regime que promoveu a europeização. Mas esse processo acabou. Neste momento a Europa está associada à austeridade e ao empobrecimento.

Por outro lado, o reforço dos mecanismos da construção europeia retirou aos cidadãos a possibilidade de escolher e influenciar decisivamente a política nacional, especialmente nos países do euro. A margem de manobra das políticas nacionais ficou extremamente reduzida.”

E o que fez este governo?! Vestiu a sua capa de prepotência – algo em que Vitor Gaspar efectivamente excele – sovando, até ao estado crítico em que se encontra, a democracia representativa.

JCR noutro artigo de fino recorte publicado também no DE datado de 13 de Fevereiro explica como:

(…) “este Governo considera que não precisa, ou mesmo que não deve, comunicar essas decisões [relativas ao Estado Social e à cobrança de impostos]. Ou seja: o Governo tem uma postura anti-democrática assente em princípios. ” (…)

A primeira dessas fontes [ideológicas nas quais os princípios estão assentes] é uma vertente do pensamento liberal que vai do neoliberalismo (F. A. Hayek, etc.) ao libertarismo contemporâneo (e.g. R. Nozick). Este liberalismo é anti-democrático na medida em que considera que há um conjunto de questões e políticas correspondentes ao enquadramento de um Estado mínimo, ou pouco mais extenso do que isso, que não devem estar sujeitas à discussão e à decisão democráticas. Se essas questões – por exemplo o nível de impostos – passassem para o debate da cidadania, o resultado seria um Estado bem mais extenso do que o Estado mínimo. No discurso politico corrente, esta visão de um certo liberalismo exprime-se na famosa TINA, de Margaret Tatcher: “There is no alternative”. Porque não há alternativa, ou se considera por princípio que a alternativa é má, não há que consultar os cidadãos.”

[Ora pois!]

Uma segunda fonte ideológica para a vontade de não comunicar é uma aplicação ao discurso político corrente do pensamento de Leo Strauss e dos seus seguidores, segundo o qual o conhecimento da Filosofia Política deve ser restrito a uma elite – auto-nomeada – e escondido do povo, incapaz de compreender o que é essencial.”

[coitadinhos de nós, todos padecemos de défice cognitivo agudo]

Assim, quando o Governo diz que os portugueses têm de decidir se querem ou não sustentar o Estado que têm, a pergunta implícita nessa frase é apenas retórica (…) Essa questão foi colocada fora da esfera democrática.” (…) “Neste contexto, a descrença nos mecanismos democráticos nacionais é inevitável.”

Em cima disto tudo – que já não é pouco – o descontentamento e a indignação por manifestas e evidentes demonstrações de incompetência, inércia, falta de zelo, falta de transparência, corrupção, etc, protagonizados pela classe política, particularmente pelas suas organizações partidárias corporativistas. Acrescenta-se um pouco de justiça disfuncional – claramente sabotada pelas organizações partidárias – e temos um cocktail altamente inflamável.

“A justiça é uma senhora cega que julga toda a gente por igual. Não discrimina as pessoas por cor, religião, opção sexual ou pelo poder que detêm. Mas em Portugal parece que a dita senhora levanta a venda que lhe tapa os olhos sempre que um poderoso se aproxima de um tribunal.” (Excerto da crónica de Luís Rosa no jornal i de 28 de Fevereiro).

Com este estado da nação, no seio desta democracia mal representada começam a fazer sentir-se os ventos de mudança  – mais do quadrante sul –  oriundos da Grécia e de Itália. Novas forças políticas que irrompem por entre os partidos corporativistas – Syriza na Grécia e Movimento 5 Estrellas em Itália – apresentam-se como alternativa. “Têm a uni-los apenas uma única coisa, prática: mandaram o consenso oposicionista às malvas e tentaram um projeto próprio, viável, de conquista do poder“, voltando a citar o artigo de PT.

Uhhhhh! O establisment já vacila. Pelo visto está em apreciação uma petição para proceder à revisão do artigo 151º da Constituição da República Portuguesa. O tal que dispõe que só os partidos políticos podem concorrer a eleições legislativas deixando de fora os movimentos independentes. Imaginem o que seria os partidos políticos perderem o monopólio do processo legislativo e com ele o habitat propício a toda este…despautério!

Concluo com a constatação deixada por Adriano Moreira) na sua crónica de 5 de Março no Diário de Notícias:

A ordem e serenidade das vítimas dos erros da política de novo-riquismo demonstram que o civismo é um valor que resiste à quebra do valor da confiança na governança que lavra por todo o Ocidente. É seguramente mais inquietante que pareça necessário afirmar que os responsáveis pela ordem garantem a governança, isto é, o civismo da população de que aquela depende, do que manter a certeza de contar com a boa ordem porque o valor da confiança não foi afectado pelo enfraquecimento da legitimidade do exercício.

É verdade que na actual conjuntura fazer cair o governo e com ele, eventualmente, o apoio dos credores internacionais pode ser “pior a emenda que o soneto.” Certamente terá o povo Português muito mais a perder que essas organizações partidárias corporativistas: como as coisas (ainda) funcionam seriam os últimos a perder o emprego e com isso todas as regalias e privilégios que – ilegitimamente (opinião pessoal) – acumulam.

Estivesse esta dialéctica a ter lugar numa mesa de poker e seria prudente advertir: o nosso jogo não é grande coisa mas não abusem da vossa mão por que cada vez mais nos convencemos que não têm NADA!

* Se Vítor Gaspar e “sus muchachos” fossem uma equipa de meteorologistas seriam tão medíocres que seriam capazes de reportar uma previsão de tempestade tropical moderada quando na calha estivesse um furacão de categoria 5!

9 thoughts on “E tudo o vento (ainda não) levou…

  1. Muito bom Murtosinha… Achei interessante a seguinte passagem:

    Uhhhhh! O establisment já vacila. Pelo visto está em apreciação uma petição para proceder à revisão do artigo 151º da Constituição da República Portuguesa. O tal que dispõe que só os partidos políticos podem concorrer a eleições legislativas deixando de fora os movimentos independentes. Imaginem o que seria os partidos políticos perderem o monopólio do processo legislativo e com ele o habitat propício a toda este…despautério!

    Espero sinceramente que isto avance.

    Abraço

    • Aprecio o tipo de ilustração satírica que produz. Mais a mais a sua forma de expressão é bem mais inteligível que a minha. Aliás até via com bons olhos, se não se importasse é claro, utilizar algumas das suas ilustrações para dar mais colorido a alguns textos que escrevi ou que venha a escrever.

      • Ok, pode fazer reblog sem problemas! Ou caso queira utilizar os trabalhos de outro modo, peço-lhe que cite o autor e título do trabalho. Obrigado.

      • Nem poderia ser de outra forma. Como posso contactá-lo para lhe pedir, por exemplo, uma ilustração para um texto que venha a escrever?

      • Infelizmente não posso fazer trabalhos por encomenda a nível particular, não disponho de tempo. Pode é utilizar alguns dos desenhos publicados. Pode contactar-me através do blog.

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