O problema das equivalências nas licenciaturas

Charles Darwin, consagrado naturalista britânico, cujo nome ascendeu à categoria de étimo de qualquer dialecto conhecido à face da Terra, fez constar do seu livro, “A Origem das Espécies através do processo de Selecção Natural” (On the Origin of Species by Means of Natural Selection), entre muitos outros achados e análises que uma das diferenças entre uma espécie biológica que prospera e outra que definha está na sua adaptabilidade ao meio. Isto é, a forma como uma espécie se adapta às mudanças no seu meio, como alterações climáticas, disponibilidade de alimento, de água, morfologia do habitat, movimentação de potenciais predadores, etc., dita o prosseguimento da sua linha de evolução e eventuais mutações que se venham a verificar.*

O Darwinismo veio a revelar-se tão paradigmático que foi adaptado por outras ciências na busca da tradução do conhecimento em determinadas matérias. Uma delas foi a economia. Não fosse o Homem também uma espécie…

A razão para tão elaborada introdução prende-se com a actuação da maioria dos “profissionais” que servem mandatos nos governos dos respectivos países como ministros das finanças e/ou de economia ou como parte integrante das equipas destes ministérios. A austeridade que preconizam implica que ou faltaram às aulas nas cadeiras de abordagem à História do Pensamento Económico, ou obtiveram equivalências convenientes, ou pura e simplesmente bateram com a cabeça – se ao mesmo tempo ou não, desconhece-se – e apagaram da memória tudo que possam ter aprendido. Ou, alguma (ou múltiplas) destas opções bastante plausíveis ou, então se aplicam esta doutrina cientes destes conhecimentos será que se surpreendem quando falham, rotunda e copiosamente, todas as estimativas que fazem para os agregados macroeconómicos?!

Concretizemos! Vem “a” Crise e os governos da maioria dos países ocidentais são apanhados com as calças na mão: bancos “baleias azuis” a nadar em águas superficiais e armados em tubarões (leia-se, sem regulação efectiva), Estados “baleias brancas” que andaram a comer camarão e lagosta (com excesso de peso, e ácido úrico) e privados “elefantes marinhos” que abusaram da carne de bife (segundo Isabel Jonet a moralista). Resultado: houve que regar com muita liquidez os bancos e “convencê-los” que não são tubarões, fazer regressar os Estados a dietas de fito-plâncton e a do sector privado à base de raias.

Metáforas inspiradas na introdução darwiniana à parte, o governo, concentremo-nos no Português, aplicou medidas em que basicamente deixou se poder fiar no crédito abundante e barato para…evoluir. Como tal, passou a mensagem que o sector privado não sabia governar-se, gastava demais e não poupava (que irónico) chamando a si esse desígnio. Por isso toca a aumentar os impostos. Como se não bastasse cortou também nos gastos, particularmente, do Estado Providência porque também o Estado necessitava de fazer poupanças**.

Onde é que isto nos leva?! Ao fim da linha para a espécie classe média?! Talvez, mas não sem antes se defenderem das adversidades que o habitat natural lhes coloca (problema que não se coloca se optarem por migrarem):

– se o governo lhes vai ao bolso daquilo que podiam ser poupanças, contando que ainda têm uma fonte de rendimento estável (entenda-se emprego), os Portugueses vão cortar no consumo, incluindo nos bens de primeira necessidade (confira aqui os valores da hecatombe);

– se o governo se põe com muitos pruridos para manter o Estado Social ameaçando fazer cortes até ao osso, e começa a criar dúvidas sobre a sustentabilidade do sistema de pensões, a espécie ameaçada consome ainda menos. Não vá ter um contratempo para o governo lhe dizer que não lhe pode valer. Melhor ter algo de parte, como a formiga…

Fazendo um balanço a única coisa positiva que se conseguiu foi a correcção – ainda que forçada – do défice externo e até aí as previsões saíram furadas (mas pela positiva). No processo, até a cerveja passou a ser um bem de luxo.

Por isso, neste contexto em que não há dinheiro para consumir e muito menos investir que reanimação da economia é que no governo estão à espera?! Uma que se baseie no uso intensivo de desfibrilhador?! E que conversa fiada é essa de querer sanear os bancos da nossa praça para conceder crédito acessível à economia?! Quem é que neste momento está a pensar investir em Portugal?! E crédito acessível para quem?! Para quem não precisa certamente…

O alheamento, intencional ou não, da dimensão evolucionista da espécie classe média, ou assalariada, de Portugal acarreta este tipo de imprevisibilidade na estimação do somatório das decisões individuais ***. Pior: quando se esperava que o governo fosse de candelabro em riste alumiando o caminho por entre a escuridão com uma voz de comando firme este vira-se para a população dando a entender que não sabe onde quer chegar e como não pode manter o candelabro o melhor é guiarem-se pela sua voz…

O resultado, os mais atentos sabem qual é. O governo e aspirantes, não. Ou pelo menos fingem…

* Esta pequena introdução não estará cientificamente rigorosa mas dá para se ficar com uma ideia do trabalho desenvolvido por Darwin que releva para este texto.

** E este é um governo tendencialmente liberal. Com tanta conversa darwiniana certamente transmutou-se!

*** Será que estão à espera que a Microsoft inclua uma aplicação especial para o Excel que contemple estes efeitos “inesperados”?!

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