Não gosto de ti, Pai…

Tal qual os progenitores de uma qualquer espécie animal, os Pais de qualquer indivíduo velarão pelo seu sustento. Embora não sendo uma premissa universal, tudo farão para assegurar meios para fazer face aos gastos materiais relacionadas com a sua sobrevivência e formação também.

É no entanto também na juventude que a maioria dos indivíduos depende do poder aquisitivo dos seus Pais para fazer face aos seus caprichos. É nesta altura também que no caso dos infantes se revelarem muito pródigos, ou exigentes demais para a bolsa dos seus Pais, que têm que ser disciplinados.

Por sua vez, se os Pais evidenciarem muitos pruridos na hora de dar uma nega aos seus rebentos ou criam indivíduos mal formados financeiramente ou emagrecem perigosamente o seu rendimento disponível. Ou todas as anteriores! Quanto menos assertivos se manifestarem inicialmente mais complicado se revelará pôr travão aos luxos e a educar os seus dependentes.

Aparte da dimensão sentimental e biológica, ao que parece, existe um Pai abstracto e omnipresente. Ao contrário do postulado pela religião, em que as Suas acções se inferem fundamentadas no credo de cada qual, a existência deste Pai é inequívoca, mesmo por quem recusa a sua existência: o Estado.

Ser Pai omnipresente é dispendioso…

Assim sendo, o Estado tem como missão dotar todos os seus filhos (leia-se cidadãos) de condições que contribuam para o seu bem-estar cuja medida é definida por cada qual. Dito por outras palavras, o Estado tem como incumbência, a promoção do desenvolvimento económico e social do país num lógica intertemporal, ou seja, sustentável. Decorre então que cabe ao Pai conduzir a política económica da Casa com o objectivo de a colocar no caminho da prosperidade

Para o efeito o “Pai” cria e gere as regras com que o país se governa, coloca à disposição dos seus cidadãos uma série de bens e serviços de primeira necessidade em condições mais vantajosas do que se fossem fornecidos pelo mercado, assegura a manutenção da ordem social, disciplina os “desordeiros” e medeia os conflitos entre os seus “filhos” de forma (tendencialmente) justa, cria infra-estruturas de base e assegura a sua manutenção, protege aqueles que, por infortúnio, caem numa situação precária, elabora e gere esquemas de suporte financeiro dos seus filhos, com base em descontos efectuados ao longo da vida activa, por forma a permitir o seu repouso numa idade mais avançada, etc.

No fundo, responsabilidades incomportáveis para qualquer carteira e exigentes demais para o conceito de envolvência de qualquer figura parental!

Rima com Austeridade…

Por influência da integração numa família, abastada e generosa, como a da CEE, o Pai outrora frugal e autoritário transformou-se numa figura envolvente e magnânima.

A mudança diametral na relação com os seus protegidos, a convivência com a família Europeia e adaptação dos seus valores trouxe inegáveis benefícios ao nível da qualidade de vida. Lamentavelmente também trouxe muitos vícios: deslumbrado por pertencer a uma família de ricos – com as facilidades daí decorrentes – o Pai começou a mimar demais os seus filhos. Em lugar de lhes exigir evidências que indicassem que seriam capazes de se auto-sustentar e até melhorar as boas condições de vida que lhes estavam a ser proporcionadas preferiu continuar a “imitar” os seus congéneres na hora de puxar da carteira. Na falta de recursos, a família sempre foi assegurando forma de rechear os bolsos do Pai nas mesmas condições preferenciais.

Depois de ter sido admitido na família Europeia o Pai passou a dispor unicamente do Orçamento do agregado familiar Português como instrumento de condução da Política Económica. Ora, a Economia é uma ciência social que estuda a forma de alocar recursos escassos para a produção de bens e serviços que satisfaçam uma multiplicidade de necessidades. Enquanto condutor de serviço o Pai perdeu a noção da natureza finita dos recursos, desperdiçando-os. Os seus e os que a família colocou à sua disposição.

Eventualmente, a família notou que o Pai estava a gastar para além das suas possibilidades e, pior sem resultados satisfatórios. Apressou-se a puxar-lhe as orelhas e a fazer cara feia ao modo de vida do Pai. Exigiu-lhe austeridade num momento delicado quando a racionalidade no passado recente, mais desafogado, teria feito toda a diferença.

Low-cost

Neste momento, depois de ter sido confrontado com o estilo de vida pouco sustentável, o Pai viu-se na obrigação, sob pressão, de subtrair/diminuir alguns direitos aos seus meninos. Na sequência, os filhos têm choramingado. O Pai por sua vez tem encolhido os ombros e desculpa a sua falta de “aptidão” para gerir o orçamento familiar com as dificuldades colocadas pela família “e amigos”.

A tarefa não se afigura nada fácil. Tanto é que a evoluir desta forma o caminho afigura-se tortuoso e cheio de obstáculos. Urge ao Pai implementar reformas estruturantes e decisivas para reverter a situação.

Para começar, o Pai não tem que chegar a todo o lado. Com o passar do tempo o Estado foi assumindo uma série de responsabilidades que se foram tornando cada vez mais onerosas. Algumas até se foram afastando do âmbito das funções nucleares do Estado. Concretizando, o Pai não tem de mascarar a falta de garra dos seus filhos e estender-lhes a mão com uma mesada (ou reforço) quando estes não conseguem singrar. O mesmo é dizer que é incomportável suportar empresas/sectores/actividades sem viabilidade e trabalhadores que pouco ou nada fazem – como há muitos – na função pública. Em Portugal não se fala mandarim nem se dispõe do desafogo Chinês para pagar mesadas…

Por outro lado, há teorias económicas com verificação empírica que defendem que em várias circunstâncias a diversificação, a disponibilização de várias alternativas apresenta como contrapartida, da maior utilidade, bem-estar proporcionado, uma menor eficiência na aplicação dos recursos. Tem de se inverter esta tendência e para isso o Pai tem que se concentrar num leque mais restrito de incumbências e ser mais racional na aplicação dos recursos a que tem acesso. Acima de tudo é premente definir o que é verdadeiramente de interesse público para limitar a margem para a atribuição de mesadas. Só assim se evita que se tenha de esticar a manta quando o Pai tem dificuldades em se governar, como agora…

Nunca é demais recordar que a especialização é precisamente a corrente mais recente no mundo empresarial. Além de muitos grupos económicos (mas principalmente os financeiros) se estarem a concentrar num número mais restrito de operações é incontestável o sucesso de vários negócios low cost: lições da Grande Crise que fizeram do “racionamento” do capital uma prioridade…

Reeducar

Finalmente e mais importante que tudo, o Estado deve fazer uso da sua autoridade, não para impor remédios conjunturais para um défice de formação social, económica, moral e cívica, que o mimo desmesurado provocou, mas para reeducar os cidadãos. Como? Conduzindo de forma mais conscienciosa e racional as suas expectativas, planificando a longo prazo o trilho que o país deve percorrer. Chegou o tempo de reduzir (e nalguns casos retirar) as mesadas aos muitos filhos que o Estado aparenta ter. É também oportuno enveredar por uma conduta mais humilde e menos faustosa a condizer com a austeridade instalada.

Na verdade, tem sido a demanda para manter os filhos satisfeitos e os “enteados” a seu favor que tem custado muitos recursos ao Pai. Está a hora de romper com essa realidade e passar por cima dos amuos e das chantagens dos filhos. Está na hora do Estado se afirmar, ser mais assertivo! Está na hora de ter Personalidade!

Assim, desta forma, o suposto Pai conseguirá o respeito de toda a Casa,independentemente da opinião e dos sentimentos dos supostos filhos: não por mimá-los mas por colocá-los no caminho da prosperidade!

Miguel Albuquerque (20/10/2010)

2 thoughts on “Não gosto de ti, Pai…

  1. Será que o Pai começou a fechar o punho e deixou de ser (tudo) tão dado?

    in Diário Económico (30/01/2011)

    Segurança Social vai cortar mais de 83 mil apoios

    O Ministério do Trabalho e da Segurança Social anunciou que prevê suspender as prestações sociais a 83.500 beneficiários em Fevereiro.

    O gabinete de Helena André informa em comunicado que mais de um milhão de pessoas entregaram as provas de rendimento na Segurança Social, que são essenciais para continuarem a beneficiar dos apoios sociais. De entre estas, cerca de 823.000 “são relevantes para efeitos de reavaliação extraordinária”.

  2. Pingback: Portugal SGPS (revisitado): Mudança de perspectiva para…favorável! « acorda es(torpor)ado!

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