Ingenuidade ou hipocrisia, Daniel?!

INDIGNADO

Confesso que quando na passada sexta-feira, dia 27 de Setembro, me deparei com o título do artigo de Daniel Oliveira no meu filtro de notícias, marquei-o como leitura obrigatória para o dia seguinte. Qual seria o seu ponto de vista?! “As listas dos independentes e a demissão dos Portugueses” (aqui na íntegra)…

Depois de lhe ter dedicado toda a minha atenção, até porque me tinha despertado curiosidade, sustive a respiração momentaneamente para tentar discernir se o que sentia era desilusão, indignação ou até boa-disposição…

Assim como me havia comprometido a ler este artigo também quis colocar na minha lista de tarefas refutar o que é afirmado pelo autor. Do seu artigo destaco o seguinte:

O que me interessa aqui é isto: num país que se queixa tanto da partidocracia, porque acabaram as listas de cidadãos por se transformar numa forma de combate interno nos partidos por outros meios? Não haverá massa crítica fora dos partidos para organizar listas que correspondam a uma forma diferente de exercer o poder local? Não, em geral não há. Porque a partidocracia que domina a nossa vida democrática não resulta, ao contrário do que é habitual dizer-se, de um cerco feito pelos partidos às instituições e às organizações da sociedade civil (sejam elas sindicatos, ONG ou movimentos sociais). Essa é a consequência e não a causa de uma sociedade civil frágil e de uma cidadania pouco ativa. Os partidos tomam conta de quase tudo porque quase tudo o que pode ser ocupado está vazio de cidadãos.

Portugal não tem vida partidária a mais. Tem sociedade civil a menos. Porque há, em Portugal, uma cultura de demissão cívica, que começa no bairro e na empresa e acaba no País. Há exceções, seja no associativismo cultural e desportivo, seja nos bombeiros ou no voluntariado social. Mas raramente correspondem ao desejo de uma participação política cidadã. Não, os portugueses não estão apenas fartos dos políticos. A prova é que depositam neles, sem hesitar, todo o poder. Do que os portugueses estão há muitos anos distantes é da política. Porque não querem saber da pólis. Porque têm um baixíssimo sentido de pertença a uma comunidade. E por isso têm tido tão maus governantes. Quem não exerce a cidadania democrática no quotidiano dificilmente pode fazer escolhas acertadas de 4 em 4 anos.

Uau! Nem sei por onde começar…

Para uma pessoa que militou no Bloco de Esquerda, ou por onde foi visto nos seus congressos, espanta-me uma série de coisas na sua linha de raciocínio que eu vou, dentro do meu âmbito económico-financeiro, tentar explicar-lhe:

Pois bem, avançar com uma lista para umas eleições autárquicas implica não só dispor de “nomes”* :

  • é fundamental que os candidatos disponham de muito tempo para se concentrar na preparação da campanha,
  • é essencial ter uma organização muito bem montada com “profissionais” tarimbados neste ofício e muita mão-de-obra prestável e solícita,
  • é imperioso engendrar uma estratégia de comunicação eficaz e abrangente para dar a conhecer o(s) candidato(s),
  • pode ser necessário montar comícios e,
  • mais mil e uma coisas – creio que já me fiz entender.

Ora bem, como não se pode pagar tudo isto com abraços ou beijinhos, tem mesmo que ser com euros, estamos a falar de um investimento gordo, bem gordo, de tempo e dinheiro. Ora pensem comigo quanto ao manancial de candidatos independentes: há assim tantos Portugueses que tenham património pessoal suficiente (vamos considerar desafogado) e que não tenham compromissos laborais que lhes permitam participar numa empreitada desta natureza?! Num país abastado como o nosso e na actual conjuntura em que a classe média ou sai porta fora, para onde consiga o seu lugar ao sol, ou praticamente submerge para o limiar da sobrevivência, certamente teremos a explicação para a “cidadania pouco activa” que tanto aflige Daniel Oliveira.

Portanto, quem é que dispõe duma organização assim tão bem montada, com colaboradores profissionais experimentados (e remunerados) e com mão-de-obra solícita cuja retribuição é a ambição de subir nas fileiras?! Quem?! E quem é que dispõe de orçamentos milionários financiados pelo próprio estado para desenvolver a sua actividade?! Quem?! E quem é que ainda por cima recebe donativos, que não são abraços nem beijinhos, – legítimos, ou em envelope canelado – daqueles que querem “fazer negócios” quando este ou aquele partido assumirem a câmara municipal?! Quem?!

Agora, perante a desilusão demonstrada por Daniel Oliveira pela maioria das candidaturas independentes serem encabeçadas por dissidentes das máquinas partidárias, eu explico, é muito simples: têm no CV a experiência acumulada nas máquinas partidárias e uma vez que são de âmbito local têm os seus próprios seguidores e “clientes”(queria dizer simpatizantes e patrocinadores). No seu feudo alguns já dominam o circuito e a importância de pertencer a uma máquina partidária torna-se menos decisiva.

Como se tudo isto não bastasse a concorrência desleal não se fica por aqui:  assim como está escrito que as falanges partidárias têm que ser financiados pelo Estado (através dos impostos, claro está) também é legal que estas organizações estejam isentas do pagamento de IVA nas transacções em que estejam envolvidas, o que não sucede com uma candidatura de independentes. E o que dizer da falta de transparência das restantes fontes de financiamento em que vergonhosamente todos os partidos se calam que nem ratos?! O mesmo é dizer que, contrariamente ao que Daniel Oliveira quer fazer crer, quem define as regras do jogo também são as falanges partidárias e como tal – sim, é óbvio que sim – manietam a democracia e suas instituições**.

Resumindo, as máquinas partidárias acederam enfrentar os movimentos cívicos (ou candidaturas independentes) mas como são tão “temerários” só permitem que o combate seja feito a nível local, não sem condicionar bastante a oposição cívica. Assim, assistimos a uma cartelização legal – porque quem define a lei também participa nos embates eleitorais – mas ilegítima e a todos os níveis desleal***. Para ilustrar imagine-se qual seria o desfecho dum hipotético combate de boxe promovido por um praticante profissional, em excelente forma física, bem “vitaminado”, que enfrenta um cidadão comum, sem qualquer experiência, depois de ter treinado, como pôde, algumas semanas. Para cúmulo, o árbitro seria um membro da comitiva do boxeur profissional que na eventualidade da coisa estar apertada certamente fecharia os olhos a algum golpe baixo.

Esse combate já teve lugar uma vez e o cidadão que se atreveu a entrar no ringue dá pelo nome de Fernando Nobre. Depois de uma vitória moral nas presidenciais de 2011 a sua imagem e os valores pelos quais lutava – moralização da classe política –  foram completamente arrasados pelas máquinas partidárias, quando aceitou encabeçar a lista do PSD por Lisboa nas legislativas do mesmo ano. Como? Primeiro, seduziram-no a chafurdar na mesma lama para depois o escorraçarem no triste episódio da eleição “do faz de conta” do presidente da Assembleia da República. Este acabou por constituir um sério aviso aos que lhe quisessem seguir os passos e mais um claro exemplo de como estas organizações são capazes de cerrar fileiras para manter o status quo ****  “Estas não são andanças para um cidadão comum!” No final, saiu cabisbaixo regressando, sem honra nem glória, ao seu antigo cargo na AMI e com um património bem mais aligeirado.

Para terminar faço questão de dar uma achega no suposto “desinteresse” dos Portugueses pela “pólis” e do alegado “baixíssimo sentido de pertença a uma comunidade”. Quando os Portugueses viviam oprimidos pela ditadura que precedeu a actual “democracia” a maioria não se manifestava muito com receio das consequências. Não obstante, isso não queria dizer que estivessem acomodados com a situação. Analisemos de outro ponto de vista: todos sabemos que as “eleições” em países cujos regimes “permitem menos veleidades que o nosso” (ou em que a corrupção está institucionalizada) têm taxas de participação elevadas e resultados na maior parte dos casos contundentes. Mas isso não implica que as suas populações sejam claramente mais interventivas na política nacional que os Portugueses.

Para quem não estiver a seguir a minha linha de raciocínio eu clarifico: as elevadas taxas de abstenção nos actos eleitorais vão muito para além do alheamento dos Portugueses na condução dos destinos do país. Revelam, acima de tudo, um sentimento de impotência para fazer frente a organizações partidárias que concentram em si o poder para os seus representantes fazerem uso dele como bem entendam, sem pudor nem remorsos. Pior! Fazem-no sem qualquer tipo de controlo por que todas as demais instituições em que a democracia se alicerça estão manietadas pelo seu monopólio legislativo. Esse mesmo que açaima o Tribunal de Contas e que enreda os demais Tribunais para que estes espertalhões continuem a levar a deles a avante com toda a impunidade.

Antes que baixem a cortina para que me cale lanço um repto a Daniel Oliveira (e a outros como ele): não aponte o dedo que é feio e não queira fazer passar-se por iluminado. A nossa decadência tem como corolário não uma partidocracia mas sim uma “partidura”. O seu discurso faria todo o sentido nos anos 90: aí sim fomos desmazelados e deixamos que estas organizações se apoderassem do país. Se quiser ser pragmático assuma a liderança dum movimento para dar a volta à imundície que fere de morte a legitimidade da “democracia” actual. Força! Eu apoiarei. Caso contrário poupe-nos os sermões…*****

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/as-listas-independentes-e-a-demissao-dos-portugueses=f832175#ixzz2gSIbbZ96

* os mais puristas poderiam mencionar como prioritário um programa eleitoral mas as falanges partidárias já demonstraram que isso nem sequer é secundário.

** menos o Tribunal Constitucional.

*** facto de que Daniel Oliveira parece ter conhecimento (pulse aqui)

A Fernando Nobre escrutina-se as rendas da sua sede de campanha [às presidenciais de 2011]. A Cavaco nunca se pergunta quem financia e financiou as suas campanhas. Nem as suas relações antigas com o BPN e a protecção descarada que garantiu a Dias Loureiro.

**** outros, não menos importantes, são a resistência corporativista de todas as bancadas parlamentares a aceitar concorrer contra movimentos cívicos.

***** Fernando Nobre foi ingénuo mas coragem não lhe faltou! Infelizmente caiu no engodo das máquinas partidárias e passou à história como hipócrita.

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